Brigadeiro Franco 2119 
Curitiba




BRASIL

Mark
Escapa

Bernadete Amorim
Curadoria
Eliane Prolik

Texto
Adolfo Montejo Navas

Fotos
Marcelo Almeida
08/11 - 20/12 2018

METAMÓRFICAS

Na interface do corpo e sua ausência, da vestimenta e o utensílio, mas também da matéria e o espaço, o trabalho escultórico de Bernadete Amorim constrói seu próprio limiar equidistante, sulca por devires carregados de história artística e, também, de um background cultural mais amplo ou antropológico. Suas peças metamórficas ou mutantes abrigam, de saída, uma ilimitação ora inquietante, misteriosa, ora ameaçadora, fruto de uma corporalidade insinuada, não padronizada, rarefeita, até interessada numa configuração desconstrutiva, acaso remota. A reinvenção de outro corpus em curso cujos órgãos ou extremidades – sempre como partes associadas e/ou descoladas - estão em parte elípticos e ao mesmo tempo presentes, paradoxalmente, percorrendo os âmbitos da escultura, da instalação, mas também de uma performance habitada - seja feita depois ou não pessoalmente -, porque ela está aí, delatada para seu anúncio.

Se a memória imagética brasileira pode reconhecer o percurso próximo dasexperiências corporais-objetuais de Hélio Oiticica, Lygia Clark, ou mais perto de nós, as objetuais-corporais de Eliane Duarte, Ivens Machado ou Tunga, essas construções atávicas da artista parecem vir de mais longe, de outra pré-história quase iconográfica, um bastidor formal de uma arqueologia contemporânea que não separaria tão simbolicamente roupa, adorno, utensílio, nem extremidades, órgãos... Ou, dito de outra forma, exterior ou interior. De fato, aquele substrato onírico e selvagem de Maria Martins, de imaginário limítrofe entre plantas- bichos é difícil de calar quando a liberdade formal se sintoniza com as pulsões fora das formas esperadas. Lembre-se também, o fundo matriarcal de Louise Bourgeois e de antigas culturas arquetípicas ou o substrato atemporal de Rui Chafes.

A velha polaridade presença/ausência pode aqui, portanto, não existir. E nas frestas contínuas de um tecido costurado e atado o que serpenteia é outra fita de Moebius, uma matéria maleável entre o côncavo e o convexo, entre a escultura e seu espaço e, em suma, um território de dobra, entre o ornamento e o amuleto, a vestimenta e o objeto, que cada vez mais foge da planaridade expositiva, ganhando tridimensionalidade, em um movimento implícito, mas calado, de plausíveis variações.

Nessa maleabilidade de dimensões-formas-junções-liames, há quase um pedido de interpretação perceptiva mutável como peças-partituras de volumes mais que de pesos, de caligrafias aéreas, móveis, mais que de
estruturas fechadas.

Já em outro diapasão perceptivo, a soma das configurações entreabertas e as marcadas texturas, cores contribuem para desenhar uma dança que ainda tem algo de feminino – com todo perigo que possa ocorrer -, no sentido de reconhecer um interior latente, de vida em raízes, matricial, que faz parte da fenomenologia das peças. E nesse íntimo há um Eros escultórico que instiga a nossa corporalidade em aberto, sem relato dirigido. Como em uma situação de balé em que todas as peças ensaiam uma coreografia escultórica. Não é em vão que o vislumbre do que escapa, de onde procede o título - “na realidade presencio o que me escapa”, confessa a artista -, fale dessa correnteza na natureza das coisas, dessa anima originária e, nessa fluidez, que se enfatizem melhor as assimetrias, as irregularidades formais, as extensões flexíveis que vestem o espaço de um antropomorfismo generoso mas nada clássico. “O corpo como abrigo móvel, mas no corpo do mundo”, ratifica Amorim. De novo, o movimento que se insinua, as nuances dos passos limítrofes, entre... Assim como o próprio espaço habita e se deixa habitar, ele adquire aqui uma fisionomia de nervuras (bitonais ou austeramente monocromáticas), cujo discurso do não linear e do aberto é pleno, e cada vez mais necessário.