OUROBOROS

Adriana Tabalipa
Celestino Dimas
Eduardo Amato
Eleonora Gomes
Érica Storer
Fernanda Pompermayer
Gustavo Francesconi
Jonas Sanson
Leo Bardo
Leonardo Franco
Marita Bullmann
Miguel Thomé
Renata Silvério
Rique-Silva
Curadoria
Isadora Mattiolli

Fotos
Andrea Mayer
18/11 - 17/12 2022

Uma serpente morde a própria cauda. O OUROBOROS é um símbolo presente em muitas culturas. Uma de suas aparições mais antigas está na tumba KV62, do faraó Tutancâmon. A cada manifestação, o círculo indica uma miríade de significados. No contexto desta exposição, as palavras que guiam o pensamento provocado por sua imagem são transformação e multiplicação - processos que descrevem as dinâmicas proporcionadas pelo PF, espaço de performance art etc, ou Performance Flex, Prazer Frenético entre tantas outras possibilidades que já preencheram essa sigla.

A exposição celebra um processo de transformação do casarão da Brigadeiro Franco, que passará por uma reforma estrutural, dando lugar a uma nova experiência. A constante reformulação do espaço é um motor do PF, que em seus oito anos de atividade acomoda ateliês, residências artísticas, grupos de pesquisa, exposições e, principalmente, práticas em performance. Nos últimos dois anos, o PF abrigou um Grupo de Pintura e o Performance Coisa, grupo de estudos em práticas simultâneas, coletivas e colaborativas em performance arte. Ambas atividades em que os contornos dessa exposição começaram a ser desenhados, pensando uma mostra de artistas residentes e ex-residentes, dando ênfase ao uso multiplicado do espaço, que é um só, mas que é e já foi tantas outras coisas.

Percorrer as práticas de ateliê do PF é deparar-se com um fenômeno de contaminação, de artistas transformados pelo contato. A transmissão de gestos, cores, processos e assuntos é proporcionada pela arquitetura de espaços em comum e por uma ética de compartilhamento. Caminhando pelos trabalhos percebemos, assim, as repetições. O devir imagem desses artistas, a multiplicação de si no trabalho, carrega muito do outro. O corpo é meio de recepção, assim como o suporte é meio de sustentação das imagens. Nesse sentido, até mesmo o espaço é meio, como demonstra o trabalho Poema Provisório, passagem que dividia o espaço de ateliê, assimilada na prática artística de Leo Bardo.

A forma circular derrama sobre as duas possibilidades de caminhos para atravessar a exposição. Entrando pelo acesso das escadas, passamos pelo Divisível, móbile de Jonas Sanson, estrutura de metal em equilíbrio feito de peças encontradas, os guizos que ressoam na partici- pação do espectador. Na primeira sala, os desenhos da série Sonho e Compromisso, de Leo Bardo, e a pintura A gente se encontra no âmago, de Renata Silvério, pensam em imagem as pulsões do corpo, a intensidade do gesto, formas que querem ser figuras, mas que ficam em eterno devir-algo, sentido compartilhado com o público. Na sala ao lado, o trabalho Coisa Extensa, de Eleonora Gomes, lida com elementos da pintura - superfície e suporte - de maneira a repensar as hierarquias entre eles, a frente e o verso, o verso e a frente, explorando a resistência do meio que escolhe intervir: a malha rugosa, que também define a imagem. As pinturas de Adriana Tabalipa, Elsewhwere e Soul - sal, são, por sua vez, como engrenagens de formas em movimento, energia cromática e dinamismo cintilante.

No salão, acontecem os ciclos de performance da exposição, que terão início na abertura, com a proposição Atlas, de Eduardo Amato, em parceria com Gustavo Francesconi. O artista realiza um Ritual de Limpeza, no resgate de papéis que acumulou durante toda a vida, que serão descartados e ressignificados por meio de coleção de ações/tecnologias - essas vão direcionar o que sobra e o que permanece do amontoado de trajetórias que os papéis documentam. A performance de Eduardo Amato continua em processo até dezembro, quando também acontecerá um workshop de performance arte com a artista alemã Marita Bullmann, e um festival internacional de performance.

Descendo as escadas rumo à galeria, os trabalhos estão organizados em quatro conjuntos de experiências. O primeiro conjunto, começando pela garagem, onde estão reunidos trabalhos de cores e delineados sedutores, de natureza gráfica. O conjunto de pinturas de Celestino Dimas cria uma composição que conjuga elementos geométricos e linhas sinuosas - urbano, tal como as formas das cidades, na sua experiência entre o grafite e o pictórico. A pintura Balão, de Leonardo Franco, faz parte da pesquisa do artista sobre os elementos narrativos das HQs, signos que compõem o seu embate exaustivo com os materiais, perceptíveis pela sobreposições de camadas de tinta e de sentido. E a porta de Leo Bardo, Poema Provisório, que em sua estrutura segmentada de estrofes, proporciona a leitura dos desenhos-versos.

No segundo conjunto, na sala entre a garagem e a galeria mais ampla, temos um grupo de trabalhos pensando em pintura aspectos relativos à recordação e imaginação. As pinturas de Miguel Thomé são passagens entre imagens, numa tradução de fotografias feitas em viagens, combinadas com as suas próprias lembranças fugidias, trazendo à tona a atmosfera de um veraneio de água gelada. As paisagens feitas de memória e invenção são também a proposta de Gustavo Francesconi em Brisa I, II e III. A pesquisa de Rique Silva propõe um olhar sobre o ser-artista, desde o princípio. Primeiro, pelo simples prazer de marcar a superfície com rabiscos e manchas da infância (no tríptico Fantos vital: autobiografia de um pensamento), até os traços intencionais que documentam o processo de uma poética (O Outro Apoca-lyp-so). Em A tela difícil e Ingenuidade (Para Marlise), não estamos diante de uma linguagem, mas de um mapa.

No salão, o terceiro conjunto reúne trabalhos atravessados pelo acaso, experimentação, e combinação de materiais inusitados em expressões em volume. Como na decisão pela barra roscada como eixo estruturante dos objetos encontrados-escolhidos de Jonas Sanson; que contrastam com a assemblage de relíquias do ateliê de Fernanda Pompermayer, que se organizam, por sua vez, pelo quase-desmoronamento. E, também, nas tentativas de Gustavo Francesconi com a modulação de pequenas pinturas, que uma vez frustradas, propõem uma nova maneira de percepção do tempo, em Meio dia e 15 - Quinze pras 4 - 9 e meia. Bem como as experiências do artista com materiais corrosivos, que vão vacilar o controle das formas geométricas tão características de sua pesquisa.

Por fim, ou num novo começo, temos o último (ou, então, o primeiro conjunto). São propostas que pensam a morte, a reconstrução e a vida - os ciclos. Abrindo (ou fechando) os caminhos com os círculos imperfeitos de gestos manuais (Andar em Círculos I e II), de Gustavo Francesconi. Atom Bomb, de Leonardo Franco, ou a grande explosão, o horror de encarar o semelhante no humano, o ovo da serpente. Kosma Ovo, de Eduardo Amato, o ovo cósmico que contém e dá origem ao universo, símbolo primordial da criação, descrito em diversas culturas antigas. Calendário sincrético que se multiplica ao infinito, pela fluidez da aquarela no ritual de gotejar os pigmentos sobre a superfície molhada do papel. O tudo de Kosma Ovo, contrasta com o vazio das infinitas possibilidades do tríptico Deus, Eu, Nada, de Eleonora Gomes, de incisões cromáticas mínimas e propositais sobre o plush suporte-visualidade.

Esse percurso sugerido é apenas o início, um entre as muitas maneiras de produzir sentidos sobre os trabalhos desses artistas, que apresentam nessa exposição coletiva parte de suas produções realizadas no contexto do PF - seja em sua estrutura física, ou na rede de laços proporcionada pelo espaço. Importante destacar a presença de práticas performativas nos processos da maioria desses artistas, que nesta exposição apresentam as suas pesquisas “entre” a bidimensionalidade e a volumetria, mas que contém em si o percurso dos movimen- tos realizados sobre os materiais e superfícies, implicando o corpo do artista e suas experiên- cias na visualidade sensível que produzem. A cauda está na mordida da serpente.

Isadora Mattiolli