Brigadeiro Franco 2119 
Curitiba




BRASIL

Mark
Aliás

Eleonora Gomes
Texto
Eduardo Amato

27/10 - 25/11 2017



Qual a pertinência da pintura no espectro contemporâneo? Em uma situação de um mundo virtual, alienado e ultra-veloz? Não que sejam essas as questões que Eleonora traz em sua obra, mas talvez sejam elas que determinem a coerência da sua produção no contexto atual. A retomada da pintura, ou a manutenção dela, não como uma representação de um mundo bidimensional, mas como registro de uma inter-relação entre sujeito, suporte e meio. O sujeito - a artista – como agente desse suporte, em um nível de consciência talvez até igualado ao espectador, que é convidado a esse “mergulho”. As questões da artista talvez envolvam a própria estrutura da arte, sua especificidade e elementos representativos. Nesse sentido, não poderia ela optar por outro suporte, visto que a técnica é completamente absorvida pela expressividade. Claro que dentro dessa temática coexistem outras questões que são investigadas. E essa investigação vai além de uma especulação técnica. Eleonora vai muito além e nos entrega uma obra de alguma forma didática, no sentido de discutir problemas gerais e entregar chaves interpretativas amplas. É como se fosse um convite, e assim me arrisco a dizer, para a contemplação de quadros, e não sob o conceito tradicional, mas sob a ideia de recriar esses conceitos de pintura, de quadros e de Obra de arte. Essa recriação se dá por análises e vestígios técnicos e poéticos que Eleonora faz, sejam as coleções de pinceladas, ou o palimpsesto de tintas e texturas que aparecem nos grandes painéis. Eleonora ultrapassa os limites da tela e vê nela sua indispensável relação com o espaço. Esses limites já foram, claro, discutidos por outros artistas, Pollock, Mondrian, quanto a espacialidade da obra e nas criações renascentistas, pensando na elaboração do que seria o considerado belo e ideal na arte. É nessa situação que a obra de Eleonora Gomes tenha o maior ponto de coerência, já que, quando a sociedade se encontra em determinada situação repetida, a arte também deve retomar esses problemas, com soluções novas, mas falando de temas já falados. É uma soma de conteúdos vivenciados pela artista dentro de um contexto social e emocional, e ainda, seja falando do Eu ou falando do Nós. A obra, nem tanto se torna ativista, no momento que não toma alguma bandeira com muito ardor, mas aponta maneiras distintas de ver e interpretar o mundo. E quando eu declaro que não se trata de uma obra ativista, não se trata também de uma obra apelativa, o domínio da técnica é tão grande que por mais autônomas que os elementos sejam, sua totalidade, e como totalidade quero dizer quantidade e escolha deles, é totalmente precisa. Não há espaço para falsos conceitos e os próprios pentimenti fazem parte de uma ideia de processo.  É sempre tudo muito claro, e expressa com generosidade todas as situações pré-dispostas pela agente. Ser espectador da obra de Eleonora Gomes é receber quase um dever, de reinterpretação do momento da pintura, do momento anterior e do momento futuro. E ainda sobre isso, não há uma fórmula fechada em todo o processo, que seja capaz de delimitar a próxima ação. Há sempre uma visão diante do abismo, e parece esse lugar, o lugar de criação da artista. Um lugar incerto, frente a novas visões de mundo.